quarta-feira, 25 de novembro de 2020

E essas tais Competências Socioemocionais?

 Por Lucilene Fernandes

Os estudos que formularam o conceito de competência socioemocional surgiram na área da psicologia e da economia. Ambas as áreas de conhecimento, cada qual com seus objetivos, buscam saber como o ser humano aprende e se desenvolve. Estes estudos ganham destaque a partir da década de 1960 e ganham destaque quando passam a ser feitos num sistema de “crowdsourcing”, ou colaboração coletiva por cientistas de diversos países. Até então, a inteligência das pessoas era mensurada a partir dos testes de QI que avaliava as competências cognitivas de cada indivíduo (como as capacidades de calcular ou identificar algo em um determinado tempo). No entanto, estudos indicavam que os indivíduos possuíam outras competências que foram chamadas inicialmente “não cognitivas”. 

O esforço coletivo dos estudiosos foi para identificar quais competências “não cognitivas” eram essas e como elas tinham efeito sobre os indivíduos que viviam em diferentes lugares, culturas e condições. De lá para cá, essas competências também foram chamadas de “soft skills” (em contraposição às “hard skills”, ou competências técnicas) e de “competências transferíveis” (porque poderiam ser usadas em diferentes ambientes e dimensões da vida). Mais recentemente, a UNESCO reuniu vários estudos e chegou ao que chamou de “Competências para o Século XXI” que abarcam essas mesmas competências que, pela grande maioria dos cientistas são hoje denominadas “competências socioemocionais”. 

Os estudos que aconteceram em diversos países levantaram os traços da personalidade dos indivíduos e, num consenso, seguiram a organização desses traços em cinco macro domínios (Abertura à Experiência, Conscienciosidade, Extroversão, Amabilidade e Neuroticismo) que contém as demais características. É conhecido como modelo do “Big Five”. 

No Brasil, nessa área, destaca-se o Instituto Ayrton Senna, que vem contribuindo com estudos sobre Educação Integral e as Competências Socioemocionais. E é dos estudos patrocinados por este instituto o “framework”, ou matriz, utilizada para compreensão das competências socioemocionais usada pela SEDUC (Secretaria da Educação do Estado de São Paulo). 

A matriz traz 17 competências socioemocionais (taxonomia criada a partir de um estudo da realidade brasileira utilizando dados colhidos no INAF 2015 – Indicador de Nacional de Alfabetismo Funcional) que estão organizadas de acordo com os cinco domínios da “Big Five”. 

Matriz das 5 Macrocompetências e 17 Competências Socioemocionais
utilizada pelo Instituto Ayrton Senna e adotado pela SEDUC



As conclusões do estudo dos dados do INAF 2015 permitiram perceber que as competências socioemocionais têm um impacto sobre a desigualdade de oportunidades existente na sociedade brasileira. Os indivíduos em situação desfavorável socialmente em função de elementos como escolaridade dos pais, renda baixa, racismo conseguem atingir resultados melhores se têm competências socioemocionais mais desenvolvidas. Os estudos da relação entre as competências socioemocionais e os índices de sucesso na vida ainda continuam buscando compreender como acontecem efetivamente! 

Neste momento, com vistas a alcançar uma educação integral concebida pela BNCC (Base Nacional Comum Curricular), a SEDUC busca inserir na prática pedagógica de todas as disciplinas e toda a equipe escolar o trabalho com foco no desenvolvimento das competências socioemocionais. Desta forma, pretendemos estimular o desenvolvimento destes traços de personalidade que vão ajudar os alunos na escola e na vida! 

De forma integrada ao desenvolvimento das competências leitora e escritora e do raciocínio lógico e das habilidades específicas das disciplinas das três áreas de conhecimento – Linguagens e Códigos, Ciências Humanas e Sociais Aplicadas e Ciências da Natureza e Matemática – o Currículo Paulista prevê o foco no desenvolvimento das competências socioemocionais. 

É um grande desafio! Mas um desafio que já existe na realidade dentro e fora da escola! As famílias, as empresas, a sociedade como um todo são compostas por pessoas constituídas de competências cognitivas e competências socioemocionais. E os problemas cotidianos que temos podem ser resolvidos desta ou daquela maneira em função de como todas essas competências socioemocionais estão sendo desenvolvidas. 

Na realidade nós todos sempre desenvolvemos mais ou menos essas competências, querendo ou não. O ganho com os estudos dos cientistas é que todos nós – gestores privados e públicos, professores e pais – quando temos foco e intencionalidade podemos ajudar muito melhor crianças e jovens a desenvolver suas competências socioemocionais. 

No PEI – Programa de Ensino Integral – as competências socioemocionais são objetivos específicos das aulas de Projeto de Vida, mas também permeiam todas as atividades e ação tutorial de todas as pessoas que trabalham na escola. E na escola somos o que chamamos de “comunidade aprendente”, o que significa que todos os alunos, os professores, os gestores e os funcionários - estamos aprendendo juntos! 

As competências socioemocionais podem ser desenvolvidas durante a vida toda! Continuamos por toda a vida melhorando as nossas competências socioemocionais, aprendizagem que se faz muito especialmente na interação interpessoal. Por isso, em todo momento estamos aprendendo, vamos aproveitar!


Referências:
IAS - Instituto Ayrton Senna. BNCC: Construindo um currículo de ensino integral. Disponível em https://institutoayrtonsenna.org.br/pt-br/BNCC/desenvolvimento.html acesso em 25/11/2020.

IAS - Instituto Ayrton Senna. Estudo especial sobre alfabetismo e competências socioemocionais na população adulta brasileira, 2016. Disponível em https://institutoayrtonsenna.org.br/content/dam/institutoayrtonsenna/atua%C3%A7%C3%A3o/centros/edulab21/INAF-Relatorio.pdf acesso em 25/11/2020